Este texto, que liguei, quer às aulas do Professor António Moreira, quer à sua bibliografia própria, quer à de outros autores que nos foi fornecida, levanta-me uma reflexão que desdobro em três tópicos que se vão entrosando: 1. Em primeiro lugar, trata-se de um estudo que realiza um exame crítico em torno de condições efetivas que garantam e-atividades produtivas. 2. Em segundo lugar, é um estudo que explana as condições de uma e-atividade em ecossistema digital com base numa posição "construtivista". 3. Em terceiro lugar, interroga o leitor relativamente às condições institucionais, que são objetivamente "políticas" (lato sensu), que consigam pôr em execução e-atividades "verdadeiras". Vejamos: 1. Este primeiro tópico aborda temas de vária ordem. Para o sucesso de e-atividades em ecossistema digital são necessárias, aparentemente, condições concretizáveis e materiais. O educador tem de ser, mais que um indivíduo, um designer de ensino. Igualmente se abordam números e mesmo idade dos participantes. E enumeram-se dados relativos aos benefícios principais que as e-atividades devidamente compreendidas produzem (no plano pedagógico, académico, social, etc.). Nestas condições assume importância o "5-Model Stage" de Salmon, que desenha uma escala que vai da motivação ao desenvolvimento de uma criadora interatividade, passando pela socialização, pela troca de informação, pela construção do conhecimento. Este tópico do estudo parece-me pretender delimitar fronteiras "reais". 2. O segundo coloca em destaque o núcleo duro do que que realmente nos desafia e é para mim entusiasmante: como desenhar e efetivar um ecossistema digital que exprima, em simultâneo, a sua autenticidade através da expressão afetiva, da coesão grupal, da inter-comunicação incondicional e incondicionada? Parece-me claro que a esta ideia de fundo subjaz a natureza do pressuposto de fundo: o construtivismo. Devo dizer que, para mim, esta é a questão principal. Por uma razão: o construtivismo é uma posição que nem sempre é bem compreendida porque assume particularidades muito vincadas em função dos domínios do conhecimento (no âmbito das ciências sociais e humanas) a que se aplica. Refiro uma história real: há tempos, assisti a um colóquio sobre transdisciplinaridade onde um reconhecido tecnocientista fez uma conterência de abertura muito interessante, que para mim, contudo, mais não foi do que o reconhecimento da importância do cruzamento de ideias em torno de uma área aplicada da tecnociência (embora com importância social). Quando lhe falei de epistemologias de fundo que ajuízam sobre a necessidade de se dessacralizar a tecnociência para a libertar das suas amarras sociais, políticas e mesmo civilizacionais, ocorrendo-me citar o "anarquista" Paul Feyerabend, a reação desse conceituado cientista foi exclamar em tom de desabafo: é um construtivista! E pronto, assunto encerrado. Com este exemplo quero apontar que o construtivismo é mal compreendido em muitos setores e incompreendido em muitos outros. Ora, o ponto de partida construtivista pretende, neste tema que aqui nos ocupa, ajustar e-atividades com e-moderação e todo um conjunto de métodos e trabalho que potencie o trabalho colaborativo e não simplesmente cooperativo. Trata-se, assim, de um paradigma que aponta para a uma verdadeira interação que produza auto-consciência, promova inteligência emocional, participação, que, com presença social, cognitiva, educativa, harmonize e favoreça uma organização complexiva que é um ecossistema digital. Esta constituição de um ecossistema digital tem algumas dificuldades de monta em conseguir exibir a sua indiscutível importância. Talvez a principal pareça ser aquilo que vou designar, em termos genéricos, a "espessura" do mundo. Em termos de debate sobre a validade de modelos verdadeiros de interação creio bem que se deve sempre colocar em tensão dois pólos: um deles será por mim denominado com uma frase do conhecido pensador Jürgen Habermas: o homem não pode não aprender; com esta afirmação este Autor quis designar algo muito relevante para o nosso tema: a comunicação aberta tem sempre viabilidade, apesar das suas inevitáveis distorções, porque no fundo o acordo racional e presencial entre iguais é o "telos" de qualquer linguagem. Esta tese, que não resume a sua obra gigantesca, exige alguns pré-requisitos difíceis que aqui não vou abordar, mas aponta para uma "presença" onde o "outro" é co-constitutivo de quem o escuta e vice-versa. Julgo que pode ser um contributo para uma compreensão da idealidade real, passe o paradoxo, de um ecossistema digital. Mas não chega. Será necessária a tensão proveniente de um outro pólo: aquele que estabelece com os objetos e as situações do/no mundo uma troca lúdica, cobrindo a sua multiplicidade. E aqui apelo para um autor como John Dewey, conhecido pedagogo, mas também politólogo e filósofo das relações internacionais (de onde parto para o conhecer). Este Autor, como outros (entre os quais G. H. Mead), segue, não por uma construção apriorística da ação, mas da praxis que mantemos com os outros e os objetos que nos cercam, que permite diversas interpretações, flexibilidade perante possibilidades conjugadas. A ação e a construção de possibilidades e intencionalidades estão, deste modo, abertas a construções e reconstruções contínuas, e só quando a intencionalidade aberta ao mundo embate na realidade tudo se inunda com a auto-consciência que tal choque produz. A solução de problemas é indissociável de um ideal de interação prévio que ganha força quando se redireciona face ao imprevisto ou, em última instância, ao impossível. Será caso para dizer: se impossível, mais necessário! É claro que um ecossistema digital, onde se fundem sujeitos e objetos em interação que possui modelos que se vão afinando com a realidade, pode abrir outras possibilidades teóricas. Não posso ignorar que há toda uma corrente estrutural-funcionalista, cujo grande autor é sem dúvida Niklas Luhmann, que parte do princípio de que organização, decisão, ação e intercomunicação, constituem sistemas autopoiéticos que vivem e se reproduzem por si e para si, não passando os membros desse sistema de "sinapses" que asseguram comunicação entre "neurotransmissores". Esta tese que foi desenvolvida por Luhmann, como uma espécie de "outra pós-modernidade", não colhe, quanto a mim, legitimidade neste nosso caso, porque um ecossistema digital vive, não de acasos, ou de uma direção naturalista férrea, mas, antes, vive de uma interação imperfeita que, porque se auto-compreende como tal, se volta para a verdadeira interação enquanto horizonte de possibilidades situadas na nossa história comum. 3. A última parte deste estudo é, quanto a mim, a mais difícil de entender. Porque, no fundo, toca o papel das instituições. Estas fazem parte de uma estrutura montada que, em meu parecer, constitui a parte mais afastada da "instituição imaginária" de qualquer sociedade, para usar uma expressão de Castoriadis. Todo o sistema histórico parte do seu ato fundador, mas o facto é que o défice de dinâmica social (ideologias, modos de produção, circunstâncias básicas da vida humana como a escassez de bens, etc.) vai amortecendo os seus ideais, as suas promessas, as suas capacidades criadores, avultando a racionalidade funcionalista. Que é a atual. Assim, que fazer no plano institucional quando é aqui que se digladiam conceções de gestão funcional de recursos escassos? Sou cético neste tópico. para mim, um verdadeiro construtivismo terá de apostar na crítica reconstrutiva e na crítica desta crítica, em movimento incessante entre horizontes, possibilidades, deceções (a que o artigo alude, de resto, e que para mim radicam, hoje, na crise da motivação), e fixações de renovados faróis utópico-regulativos. A utopia, como nos diz a sua etimologia, é apenas o que está "fora do lugar", do "ainda não ser". Logo, creio bem que o entusiasmo endógeno a um ecossistema digital poderá ser uma boa bússola para caminhar na "meia-noite da História" em que de algum modo vivemos rumo a uma madrugada mais promissora. Desculpem meu desabafo po(i)ético. Cumprimentos. aluno 2302821. Silvério Cunha.
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- Oct 2023