Mas ainda sim há um forte apelo a Exotização, grave problema, sobretudo na perspectiva de Mbembe. Pensemos no ANTI-MUSEU.
O conceito de anti-museu proposto pelo filósofo camaronês Achille Mbembe é uma crítica radical à instituição museológica tradicional e à sua forma de apresentar e interpretar o passado, particularmente no contexto colonial e pós-colonial.
Mbembe argumenta que os museus, em sua maioria, perpetuam uma narrativa eurocêntrica e colonialista, silenciando vozes e perspectivas marginalizadas, e apresentando artefatos como objetos exóticos e desprovidos de sua história e contexto social original. Ele critica a forma como os museus frequentemente separam os objetos de seu contexto de origem, apresentando-os como peças estáticas e desprovidas de significado cultural vivo.
Em contrapartida ao museu tradicional, Mbembe propõe o conceito de anti-museu como um espaço de hospitalidade radical, onde diferentes vozes e perspectivas possam ser representadas de forma mais justa e equitativa. Esse espaço alternativo teria como objetivo:
Descolonizar o conhecimento: Desafiar a narrativa eurocêntrica dominante e dar voz a perspectivas marginalizadas e subalternas.
Re-contextualizar artefatos: Apresentar os objetos em seu contexto social e cultural original, reconhecendo sua história e significado para as comunidades de onde foram provenientes.
Promover a participação ativa: Envolver as comunidades na curadoria e na gestão do anti-museu, reconhecendo seu papel como agentes ativos na construção de sua própria história.
Facilitar a reconciliação: Criar um espaço para o diálogo e a reconciliação entre diferentes grupos sociais, confrontando os traumas do passado colonial.
O conceito de anti-museu de Mbembe ainda está em desenvolvimento e aberto a diferentes interpretações. No entanto, ele representa um importante desafio à museologia tradicional e um convite para repensar o papel dos museus em sociedades pós-coloniais.
Alguns pontos importantes a serem considerados sobre o anti-museu de Mbembe:
Não se trata de negar a importância dos museus: Mbembe reconhece o valor dos museus como espaços de preservação da memória e da cultura. No entanto, ele critica a forma como os museus tradicionais operam, muitas vezes reforçando desigualdades e silenciando vozes marginalizadas.
O anti-museu é um espaço em constante transformação: Não existe um modelo único de anti-museu. Cada anti-museu deve ser desenvolvido em diálogo com as comunidades e os contextos específicos em que está inserido.
O anti-museu é um projeto político: A criação de anti-museus é um ato político que visa desafiar as relações de poder existentes e promover a justiça social.
O conceito de anti-museu de Mbembe tem inspirado diversas iniciativas em todo o mundo:
Museu do Quênia: O Museu do Quênia foi reaberto em 2018 após uma ampla reforma que incorporou princípios de descolonização e participação comunitária.
Memorial do Holocausto dos Estados Unidos: O Memorial do Holocausto dos Estados Unidos em Washington, DC, utiliza diversas ferramentas para promover o engajamento ativo dos visitantes e confrontar as questões de memória e trauma.
Truth and Reconciliation Commission of South Africa: A Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul utilizou depoimentos públicos e exposições para lidar com o legado do apartheid.
Embora o anti-museu ainda seja um conceito em desenvolvimento, ele oferece um caminho promissor para repensar o papel dos museus em um mundo cada vez mais globalizado e interconectado.